Vivem em lusomódulos estes operários portugueses. É o nome da marca desses pequenos cubículos pré-fabricados com ar condicionado acoplado. Estaleiros como este incluem uma miniclínica, com enfermeiro e médico portugueses, uma cantina com cozinheiro português para que não se ressintam com a diferença de alimentação. De dia trabalham, nas horas vagas podem jogar dentro daquele recinto entaipado, matraquilhos, snooker, pingue-pongue, têm acesso à Internet.

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Chamam-se “base de vida” a estaleiros de construção civil como este do Grupo Lena Angola, que está instalado no meio do mato, na aldeia do Luvuei, província do Moxico (Leste de Angola). É assim chamado porque é suposto conter tudo o que necessitam para ali viver, sem precisarem do mundo exterior. Assim, a ganhar dinheiro sem terem grande sítio onde o gastar, até terem férias e poderem regressar a Portugal.

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João Duarte, engenheiro civil de 32 anos que trabalha há dois anos em Angola, é por isso que anseia, pelas férias. Angola é recurso, Angola é ponto de passagem. Tem a família, a mulher e a filha de três anos na Golegã. Veio para Angola adivinhando um fim que não foi surpresa para nenhum dos que trabalhavam na sua empresa. Ele antecipou-se e quando a Asibel Construções, na Batalha, anunciou insolvência já se tinha vindo embora.

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Em Angola, veio trabalhar para uma empresa portuguesa de construção, mas agora já passou para uma israelita. Mudou porque a remuneração não é só o ordenado e nesta empresa, além de ganhar melhor, passou de 22 para 54 dias de férias, tinha direito a ir três vezes por ano a Portugal, agora são quatro. E é isso que ele quer, juntar o máximo de dinheiro e ir o máximo de vezes ter com a família. Se a Asibel continuasse de portas abertas, ele estaria em Portugal.

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Júlio Almeida está hoje sentado numa esplanada próximo da marginal de Luanda, na cervejaria Rialto. Está sozinho, numa pose de observador. É o que tem feitos nos últimos anos, estudá-los, a estes portugueses “que chegam às malgas” empurrados pela crise, que chegam e vão, às temporadas. “Nos últimos sete anos, todos os dias chegam.” Ao falar desses portugueses é como se houvesse entre ele e eles um fosso que os separa, um “eu” e “os outros”. É verdade que ele só voltou definitivamente “a África” na década de 1990, mas, no seu caso, é como se nunca de cá tivesse saído.

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Em Portugal, chamavam-lhes em tempos “retornados” — “não brinques com eles que são retornados”, ouviu Júlio na escola — porque supostamente tinham voltado ao ponto de onde todos tinham partido. A viver em Luanda, ele sente que agora é que retornou ao sítio de onde sempre foi. Não está sequer a falar de Angola. A sua infância nos tempos em que Portugal “ia do Minho a Timor” foi em Moçambique, mas lá ou em Angola, é como se tudo fosse uma continuação. Fala de “África” como se fosse um país.

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Nasceu em 1968 em Moçambique, a sua foi a última família portuguesa a sair de Vila Pery, agora chamada Chimoio. Com o 25 de Abril e a chegada da independência do país, em sua casa foram ficando estacionados vários carros, cerca de 15. Pertenciam às famílias que não puderam fugir a conduzir para Portugal, pessoas desesperadas que tentaram transformar tudo o que possuíam em dinheiro. O avô de Júlio foi-lhes comprando estes carros que não podiam levar com eles, por ser “bom samaritano” e porque estava convencido de que ele próprio nunca ia fugir, como esses portugueses que lhe pediam ajuda.

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A família de Júlio Almeida, portugueses radicados em Moçambique há três gerações, foi, de facto, ficando. Com os carros dos outros a apanhar pó, sem nunca lhes ligarem o motor. Ficaram mesmo quando viam passar “camionetas com pessoas estropiadas” a serem levadas para o hospital, mesmo quando na escola ficava triste porque havia colegas que deixaram de o chamar Júlio para se passarem a dirigir a ele como “o branco”, mesmo quando havia tiros na rua e as janelas de casa passaram a estar forradas a colchões, mesmo quando já não havia petróleo para comprar, nem sabão, nem massa, nem arroz.

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O avô e o pai teimavam em ficar, “isto ainda há-de ser terra para todos”. Até que a matriarca, avó Maria Ernestina, a independência tinha sido declarada há cinco anos, corria já 1980, disse: “Se vocês quiserem ficar ficam, eu pego nos miúdos e levo-os.” Júlio tinha sete anos. E os homens da família acabaram por aceitar o inevitável. Passaram os últimos dias em Moçambique a comer lagosta e camarão, a gastar o dinheiro que em Portugal não ia valer nada. Os carros lá permaneceram, estacionados.

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Rede Social Portugal-Angola

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João Duarte, engenheiro civil, em Angola;

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Espinho. 1980. “O frio.... Senhoras de lenços na cabeça.” Quando Júlio Almeida chegou a Portugal: “Pensei que aquilo era o inferno.” Ao avô e ao pai pareceu-lhes o mesmo. O avô morreu três anos depois de terem voltado para Portugal, e o pai, cinco anos. Acha que foi da amargura: “Definharam e morreram. Vi-os morrer de tristeza.” A avó ainda insistia com o avô, para ver se ele saía de casa e se animava — “vai lá fora, vai ao café”, e ele respondia-lhe “e vou conversar o quê com esta gente?”. “Com esta gente.” Era a completa falta de identificação. Júlio não deixou que isso lhe acontecesse. Tirou o curso na Escola de Hotelaria do Porto e voltou. Primeiro para Moçambique, depois para Angola. Para África.

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Voltou uma vez a Vila Pery, com 22 anos. Não é de nostalgias mas teve necessidade de ir visitar a povoação onde foi feliz na infância, para ver se ainda existia a casa onde viveu. Foi só essa vez, garante. Está transformada em edifício do Governo e nada mais quer dizer sobre o assunto. “Foi o que foi. Do passado vivem os museus.”

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Ele não voltou para o passado que deixou, com saudosismo do império português. Nada de material ficou desse tempo e o desapossamento na sua infância, o virem de mãos a abanar, talvez tenha ficado naquilo em quem ele se transformou. “Não tenho nada meu. A casa onde vivo é arrendada, nem o candeeiro da mesinha de cabeceira é meu.” Voltou para uma forma de vida, a que associa a liberdade com que viveu a sua infância, de quando era pequenino e roubava mangas das árvores e brincava nas linhas de caminho-de-ferro de Vila Pery. “Recuso a limitação. Tu podes, assim tu queiras”, dizia-lhe o avô que morreu de tristeza.

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Quando mandou um currículo para vir trabalhar para Angola “calhou na guerra”. Foi trabalhar para uma empresa do grupo Espírito Santo, a OPCA, Obras Públicas de Cimento Armado.

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Ele era o responsável de “bases de vida”, tratava do alojamento e do transporte de comida de locais onde tinham de ser criadas condições de vida para “os poucos brancos que tinham ficado”, normalmente engenheiros.

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E parece que a guerra condizia com ele. “Adoro o caos.” As oportunidades, os improvisos, a desorganização. O seu trabalho vivia disso. “Numa cidade inteira sem água, imagine que conhece um gajo com um camião-cisterna?” Numa cidade sem fornecedores de alimentação, “comprava-se aos putos que roubavam dos contentores do porto. Isto é Fellini”. Conta tudo isto de camisa de alças e chinelos, a comer frango de churrasco com jindungo [malagueta]. 

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A guerra civil angolana acabou em 2002, ele hoje é director de alimentação e bebidas da multinacional sul-africana Shoprite, um grande grupo de retalho africano. “É miraculoso o que se passou aqui em dez anos. Não havia restaurantes, estar aqui a comer frango no churrasco…” Agora, faz-se uma viagem Luanda-Lobito em cinco horas, mas durante a guerra levava cinco dias, até porque não se podia guiar à noite — parava-se o carro ao lusco-fusco, cobria-se com uma rede verde do exército e camuflava-se com ramos cortados até nascer o sol, lembra.

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Fala como se tivesse saudade do tempo da guerra e do caos, e é como se os outros, os que chegaram há pouco só para ganhar dinheiro, não compreendessem Angola, porque não sabem o que é querer mesmo viver no país, sem as facilidades que há hoje, por mais que se fale das oscilações do preço do petróleo, de alguma insegurança, do preço alto do custo de vida, das dificuldades em mandar dinheiro.

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Júlio Almeida faz parte de um pequeno grupo de portugueses que sempre quiseram ficar. E quando retornaram tiveram mesmo de querer ficar. “Esta é a minha terra.”

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Ele sabe que nunca mais voltará a viver em Portugal mas que “na vida não há cesto cheio”. Tem três filhas no Porto, a mais velha tem 25 anos, a mais nova 18. “Ficarei sempre em África. Sou um híbrido, o branco mais preto de Angola.” Ouve com bonomia quando nas notícias angolanas às vezes se diz, por tudo e por nada, que o que corre mal na Angola de agora é “culpa do colono”. Está convencido de que é por falta de alternância política que se escolhe esse bode expiatório: não podendo dizer que o culpado é o outro partido, diz-se que é culpa do colonizador. Desvaloriza. Sorri.